. Setembro
.. que finalmente escrevi para a Raríssimas.
Susana Felix - O mesmo olhar
Lá de onde vem a luz
Longe do meu lugar
Eu encontrei um trevo de mil tons
E já na minha mão
Sem crer eu procurei
Se era para mim a rara folha a mais
Há gente rara que és tu
Há gente rara que sou eu
A mesma fonte o mesmo olhar
A minha sorte
Pode também ser tua
Eu vou seguindo regando o coração
Há gente rara que és tu
Há gente rara que sou eu
A mesma fonte o mesmo olhar
Lá de onde vem a luz
Longe do meu lugar
A mesma fonte, o mesmo olhar
Chegou mais um tesouro ao nosso mundo!
Bem-vindo João! Que sejas muito feliz.
É muito fácil passar de bestial a besta no mundo do trabalho. Eu já sabia que não ia ser fácil o regresso ao trabalho depois do Alexandre nascer. No entanto, quis o destino que me fosse diagnosticada gravidez de risco (= baixa durante 23 dias) e que o Alexandre nascesse prematuro e doente (= baixa de 71 dias pelo internamento do bebé). Por isso, com as baixas, a licença de maternidade (= 150 dias) e as férias deste ano, só volto ao trabalho em Janeiro.
Expliquei tudo ao meu chefe e fiz questão de, um dia, levar o Alexandre à empresa para que o meu patrão visse que eu não estava a exagerar e que não era nenhuma mandriona que se estava a aproveitar do bebé para ficar em casa "sem fazer nada" mais uns tempos.
No entanto, de pouco adiantou.
Há dias, pelo que soube, referiram-se a mim, outrora a "funcionária excelente", como:
"A fulana que trabalha aqui teve um bebé e já está em casa há tempo demais..."
Lindo.
Felizmente, a "época" das visitas ao bebé está quase a acabar. As pessoas vêm fazer a visita de cortesia a que se sentem obrigadas e depois nunca mais ligam nem aparecem. Por mim tudo bem. Só quero que sejam coerentes. Se nunca nos ligaram puto, não há-de ser agora que nos prestam atenção.
O pior é que, quando aparecem, deixam "marcas". Decidi fazer um pequeno resumo de alguns dos comentários que fui ouvindo ao longo dos últimos meses, proferidos pelas pessoas que nos visitaram, depois de saberem que o bebé tinha problemas:
#1
- Não fizeste a amniocentese???? (cara de espanto)
- Não.
- Que estupidez! Devias ter feito! Detectavam logo tudo...
#2
- Não eras imune à toxoplasmose, pois não?
- Não.
- De certeza que foi alguma coisa que tu comeste.
#3
- Que medicamentos tomaste na gravidez?
- Até às 27 semanas, nenhum...
- Hummmm... de certeza?
#4
- A tua médica era parva, só pode. Tinha de ter detectado tudo.
- Mas...
- Lembras-te que te disse para marcares uma consulta na minha médica? De certeza que isto não acontecia com ela...
A impressão com que se fica ao fim de umas quantas visitas é que ninguém presta atenção ao facto de falarmos em doenças raras e problemas genéticos. A culpa tem de ser sempre de alguém e, se puderem insinuar ou dizer descaradamente que a culpa é da idiota da mãe que fez algo que não devia, tanto melhor.
Cada visita representou (e ainda representa), para mim, um grande esforço de "ginástica social". É vestir um belo sorriso, umas doses de paciência e aturar uma série de diagnósticos, opiniões, futurologias, olhares de pena e/ou acusatórios, conselhos e comentários muitas vezes escusados que não beneficiam nada a minha confiança e auto estima.
Embora não devesse nada a ninguém, nos primeiros tempos, ainda me dava ao trabalho de justificar:
#1 - Qual é o médico que recomenda ou faz uma amniocentese a uma grávida de 26 anos, sempre saudável, sem antecedentes familiares de problemas genéticos e cujas análises e rastreios estão perfeitamente normais?? Porque poria eu a minha gravidez em risco sem nenhuma razão que o justificasse??
De qualquer maneira, depois de nascer, o Alexandre fez o exame do cariótipo, que veio normal. Ou seja: se tivesse feito a amniocentese, os resultados vinham normais, ficaríamos todos contentes e o que tinha de acontecer acontecia na mesma.
#2 - Engravidei em Setembro, mas deixei de tomar a pílula em Abril de 2008. Desde essa data que passei a tomar todos os cuidados com a alimentação relacionados com a toxoplasmose. Passei um ano sem comer fruta com casca, sem comer alface, mesmo bem lavada em casa, sem comer carnes mal passadas e congelava tudo e mais alguma coisa antes de comer, para não correr riscos. Nunca toquei em terra nem em animais desde essa data. Além disto tudo, as análises da toxoplasmose estavam inalteradas no final da gravidez, o que quer dizer que não estive exposta.
#3 - Nunca tomei medicamentos. No início do terceiro trimestre de gravidez apareceu-me a porcaria das PUPP e tive de tomar uma injecção e uns comprimidos. Vários médicos garantiram-me que nada daquilo faria mal ao bebé...
#4 - Nenhum médico é infalível. Não há milagreiros. Apesar de a comunicação com a GO não ter sido das melhores em alguns momentos e apesar da embirrância do meu marido com ela, nunca achei que tivesse sido incompetente. Já perguntámos a muitos especialistas se os problemas do Alexandre podiam ter sido detectados em ecografia. Todos dizem que era muitíssimo difícil. Só uma pessoa muito experiente em detectar dismorfias poderia suspeitar de algo...
Ao fim de uns tempos, deixei de dar justificações às pessoas. Quando me diziam coisas deste género, limitava-me a responder com um encolher de ombros ou um sorriso parvo. Honestamente, há alturas em que mais vale fingir que somos imbecis!
... sobre o post anterior:
As miúdas não têm culpa. Estavam apenas a ser humanas. Quer queiramos quer não, todos temos um pouco de curiosidade mórbida em relação à diferença.
Acabaram por "levar por tabela", porque descarreguei nelas o muito que me incomoda o olhar das pessoas. Umas olham com pena, outras com curiosidade, outras com compaixão. E eu simplesmente não gosto.
No entanto, de pouco me serve não gostar. É algo que não posso evitar e que tende a piorar à medida que o bebé cresce.
Lembro-me que, na Neonatologia, sempre que entrava um bebé novo, na primeira visita, os pais tendiam invariavelmente para ir espreitar as outras incubadoras. As enfermeiras intervinham sempre e diziam que aquilo não era um mostruário de bebés doentes. No entanto, sei que se os pais vissem um bebé mais pequeno que o deles, com mais tubos e mais soros, ficavam mais sossegados.
É uma espécie de: "se a desgraça do outro for maior que a minha, então eu suporto-a melhor".
Comigo não funciona bem assim. Quando me vêm com as histórias de que fulano teve um bebé com resmas de problemas e que "há pior", eu respondo sempre que não devia haver pior. Nem melhor. Há certos tipos de sofrimento que são absolutamente escusados e não entendo onde está o Deus que a todos ajuda.
14 de Outubro.
Há exactamente um ano atrás, a minha vida mudava:
"Não sei o que fazer agora, nem o que dizer, nem o que pensar… estou num estado indizível… É uma espécie de meio-termo, em que não consigo rir nem chorar.
Acho que estou a habituar-me à ideia."
Um ano depois, posso afirmar que continuo num estado indizível. Às vezes rio, mas muitas vezes choro. Por todas as razões e mais alguma.
Cá vai uma razão:
Hoje fomos ao hospital com o Alexandre para ele fazer a primeira dose da vacina do Vírus Sincicial Respiratório (RSV), que normalmente se administra a prematuros e/ou bebés com problemas cardíacos congénitos.
Fomos os três, porque o meu marido está de férias.
Depois da vacina tomada, fomos à secretaria do serviço de Pediatria para marcar a próxima dose. Estavam duas ou três pessoas à nossa frente. Eu fiquei na fila e o meu marido afastou-se um pouco com o carrinho do bebé. Uns segundos mais tarde, chegam duas miúdas que aparentavam uns 16 anos. Uma delas veio para a fila, a outra ficou perto do meu marido.
Não demorou muito até que a miúda que estava fora da fila começasse a olhar para o carrinho do Alexandre. Olhava para ele fixamente durante uns segundos e depois olhava para o meu marido, que estava a mexer no bebé. Parecia um robô. Ora olhava para o Alexandre, ora para o meu marido, como se estivesse à procura de traços ou anormalidades semelhantes num e noutro.
Estou habituada a que olhem para ele, mas aquilo estava a irritar-me e já não faltava muito para eu perguntar à rapariga se tinha pago bilhete para observar o meu filho com tanto pormenor quando ela vem para junto da amiga que estava atrás de mim na fila. Não pude deixar de ouvir parte da conversa entre as duas:
- Está ali um bebé que é cego e tem um tubo no nariz!!!
- Eiii... A sério? Fica aqui na fila a guardar-me a vez, para eu ir lá ver!
Não me consegui conter, virei-me para trás e disse à miúda que se preparava para deixar a fila e ir ver o Alexandre:
- Ele não é nenhuma peça de museu.
- Mas eu queria ver o bebé...
- E eu já disse que ele não é nenhuma peça do museu das aberrações, entendido?
Ficaram as duas na fila. Eu fiquei a tremer e a suar por todos os poros. Só quando saí do hospital é que me dei ao luxo de chorar tudo o que me apeteceu.
Parabéns, Ana, pelo teu segundo aniversário.
Agora associo sempre o dia 5 de Outubro ao teu aniversário. Já não é apenas um feriado. Não é mais um dia do calendário. É o dia dos teus anos.
Já no ano passado foi assim. Conto os dias junto com a tua mãe, "assisto" empolgada aos preparativos e espero ansiosa pelo dia que sei que é teu e dos teus. Fico feliz por saber que é (mais) um dia feliz para vós.
Sei que parece estranho. Simplesmente porque não vos conheço. No entanto, desde que descobri o cantinho da mamã, há mais de dois anos, senti de imediato uma enorme empatia. A tua mãe tornou-se, desde logo, num modelo para mim. É uma mulher com uma energia contagiante, uma esposa dedicada e uma mãe extremosa. E a forma como (d)escreve a vossa História é absolutamente fascinante por transparecer amor, ternura, amizade, (com)paixão e uma força inesgotável.
Por isso, mamã Scas, parabéns também para ti! Não só porque as mães também estão de parabéns no aniversário dos filhos, mas sobretudo por seres um excelente ser humano, que merece todas as bênçãos possíveis.
A ti, Ana, desejo que tenhas um dia muito longo, cheio de miminhos e prendinhas. Certa de que és uma criança feliz, desejo que prolongues, aumentes e irradies essa felicidade por muitos e muitos anos. Acredita que tu e a tua linda família estarão sempre no meu pensamento neste dia, todos os anos.
Porém, se eu já não estiver aqui pelas andanças dos blogs para "falar" contigo, fica para sempre:
Parabéns Ana!
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No início de Agosto cortei o cabelo curtinho. Tinha-o pelos ombros e cortei-o muito curto mesmo. Ficou do tamanho do da Mariza.
No cabeleireiro, estava uma senhora ao meu lado, a olhar deslumbrada para mim e a dizer: "Ai, menina, é preciso ter coragem"...
Eu dei-lhe um dos meus sorrisos do tipo "Está bem, não me aborreças e mete-te na tua vida", mas ela lá continuou a discursar sobre o quão corajosa eu estava a ser por cortar o cabelo de forma tão radical.
Isto foi um belo mote para eu começar a divagar sobre isso da coragem. E não me parece que tenha nada que ver com cortes de cabelo.
A verdade é que não tenho coragem nenhuma.
Coragem é enfrentar o desconhecido sem medo. É ir à luta sem vacilar. É pôr os pés ao caminho sem tropeçar nos obtáculos.
Tenho enfrentado esse desconhecido, morta de medo do que me espera o dia seguinte.
Tenho lutado, mas com espírito perdedor.
Tenho percorrido o caminho, sempre a tropeçar nas pedras e nos obstáculos que devia saber contornar.
Coragem de cabeleireiro não me falta. Eu queria era da outra.
Já agora, cortei o cabelo porque, graças ao stress e ao facto de não me alimentar lá muito bem, o dito cujo estava a cair às molhadas. Já estava meia careca, por isso não custou nada!
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O importante é que agora não dá trabalho nenhum e até nem me fica mal de todo. Por isso, nunca mais o deixo crescer!
O pediatra do Alexandre é "conhecido" como sendo um excelente profissional. Não queria colocar em causa o profissionalismo do dito senhor, mas o plano alimentar que ele fez para o Alexandre é, no mínimo, ridículo.
Em todo o lado, leio que os alimentos devem ser introduzidos de forma gradual, devagar e com vários dias de intervalo.
Eis o que o senhor pediatra me disse para fazer, desde o dia # 1 e até aos 7 meses:
7:00h - leite
11:00h - sopa (3 legumes à minha escolha, 30 gr. de carne [coelho, frango ou vitela], azeite e sal)
15:00h - fruta crua (maçã, pera ou banana)
19:00h - papa láctea sem glúten
23:00h - leite
Eu: Ó Sr. Doutor... assim, tudo junto?? Não começo primeiro só com a papa durante uma semana?
Ele: Não. É assim. Tudo junto.
Eu: E a sopa leva já carne?? E sal???
Ele: Sim, sim. Introduza tudo ao mesmo tempo. Não lhe faz mal nenhum.
Eu: Mas... e se ele fizer alguma reacção a algum alimento? Eu não vou saber qual é...
Ele: Não faz nada...
Enfim.
Leio em todo o lado que a introdução de novos alimentos tem de ser gradual. Escusado será dizer que não vou fazer o que o homem disse para fazer. Já me chega os problemas que o Alexandre tem para comer. Não vou à procura de mais lenha para me queimar. Esta fase é a nossa esperança para que ele comece a ganhar autonomia alimentar e deixe de precisar da sonda nasogástrica. Sinceramente, acho que introduzir tudo ao mesmo tempo e substituir já três refeições de leite por sólidos de uma assentada só o iria confundir. A última coisa que eu quero é que ele rejeite de vez a comida...
Além disso, acho perigoso e não faz sentido nenhum...
Tenho andado a fazer as minhas pesquisas e vou seguir o plano alimentar que considero mais comum. Vi este no site do Hospital da Luz e parece-me bem:
O tempo passa a correr.
O tempo para vir cá escrever qualquer coisa não é muito. Aproveito os minutos livres para dormir ou arrumar a casa. Também não tenho vindo escrever nada porque não queria tornar este blog num espaço lamechas. O meu humor não anda lá muito nas alturas e não me apetece escrever nada de muito optimista. Até porque não tenho nada de muito bom ou optimista para escrever.
Cheguei à "Holanda" e ainda não me sei orientar muito bem. Por cá vive-se um dia de cada vez. Literalmente.
Setembro começa a ser um mês marcante nas nossas vidas. Foi o mês em que fiquei grávida, no ano passado. E é o mês em que celebramos o nosso aniversário de casamento.
Faz hoje 4 anos que casámos.
Não festejámos.
Não é que não estejamos felizes pela nossa união, mas ainda não sabemos falar "Neerlandês". Vamos continuar a aprender este novo idioma e pode ser que os próximos anos sejam celebrados com mais entusiasmo.
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. à boleia